Thursday, 2 January 2014


(ou como o meu coração ainda acredita em história de amor eternas...

"Legendary hearts
tear us all apart
make our emotions bleed
crying out in need")

Sunday, 29 December 2013

Um bilhete, na mesa, sem envelope, folha de papel sem dobras, caneta por cima em viés. Mensagem supostamente inacabada, interrompida talvez por um telefonema, uma panela ao lume. O rádio ligado, baixo, inaudível numa primeira interação com a sala vazia de pessoas, plena de impressões. Meia-luz, meia penumbra. Mundos divididos no mesmo espaço. Uma certeza com tanto de improvável, como de inabalável. Aperto no coração, manso a princípio, gritante três segundos depois. Interruptor, luz que invade o espaço. Ânsia de afastar pensamentos que se esperam injustificados, negada. Improbabilidade concretizada. Todas as outras certezas intactas. O baú cor de mel, comprado no antiquário junto à Assembleia, o sofá vermelho desbotado pelo tempo, no mesmo sítio. As fotografias, os quadros, o cavalo de madeira que o meu tio me deu milimetricamente iguais a si mesmos. A orquídea, indiferente e altaneira com as suas hastes carregadas de flores, sorridente para quem chega. Apenas o papel destoa, e aquela caneta, por fechar, em viés, em cima da mesa.

Tuesday, 10 December 2013

Corto o silêncio com as palavras, como corto o ar em danças só minhas. Hoje apetece-me escrever, como noutros tempos. E mesmo sendo os pensamentos desconexos, escrevo, faço a vontade aos dedos, aos olhos. Preencho brevemente o branco do monitor, com sorrisos no canto da boca, cheios de outras histórias, de outras frases, que deixei lá atrás, que guardei lá à frente. Desassossego singelo, que se aloja na minha garganta e sem som surge em meias medidas, atrapalhando-se sem rumo,  sem conteúdo específico. Palavras atrás de palavras, que se apagam umas às outras por não saber o que quero dizer, o que é para dizer. E fica assim, por hoje, a vontade, sem direção, reduzida a meia dúzia de linhas.
Things are definitively black and white. Straight forward. No grey areas, no maybes or, or ifs. I may like to bring pink into the picture, but pink is an outsider. Has no way around here, nowhere to live. Pink has to go. And there is nothing wrong with some good old fashion black and white. It keeps things in perspective.

Thursday, 5 December 2013

Thursday, 21 November 2013

"Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba"

Sophia de Mello Breyner Andresen


(E é isto tudo. Frase após frase. Como o ar que neste momento respiro. Obrigado, Sophia.)

  (a dobrar)

Thursday, 24 October 2013

"Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. (...) A esperança da humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente."

Valter Hugo Mãe